Formação 4-4-1-1: O Segundo Atacante, a Itália de 2006 e o Arsenal Invicto
A 4-4-1-1 é uma 4-4-2 em que um dos atacantes dá um passo para trás. Dez ou quinze metros, não mais do que isso. É o suficiente para o segundo atacante aparecer numa faixa do campo que nenhum adversário tem a obrigação de cobrir. Aqui estão as funções de cada linha, os dois times que fizeram o esquema entrar para a história e o que acontece quando alguém consegue marcar o homem entre as linhas.
De onde veio a 4-4-1-1
Ela nasce dentro da 4-4-2, e o futebol brasileiro conhece esse jogador há muito tempo.
É o ponta de lança, o atacante que não vive dentro da área e que prefere receber de frente para o gol a trinta metros dele. Na Itália esse jogador se chama seconda punta, e o futebol italiano dos anos 1990 e 2000 estava cheio deles: Baggio, Del Piero, Totti. A 4-4-1-1 é o desenho que coloca esse jogador em campo sem abrir mão das duas linhas de quatro que Arrigo Sacchi tinha ensinado a todo mundo.
A versão mais famosa fora da Itália é inglesa, com sotaque holandês. No Arsenal de Arsène Wenger, Dennis Bergkamp começava ao lado de Thierry Henry, mas recuava o tempo todo para a zona do camisa 10, enquanto Henry abria pela esquerda. Os zagueiros adversários não sabiam se iam atrás deles. Em 2003-04 aquele Arsenal terminou o campeonato sem perder um jogo.
As linhas da 4-4-1-1
- 4 defensores: dois zagueiros e dois laterais, protegidos por duas linhas compactas.
- 2 meias centrais: um que marca e outro que organiza.
- 2 meias abertos: pontas que atacam e voltam, como na 4-4-2 clássica.
- 1 segundo atacante: entre as linhas, atrás do centroavante, livre para se mover.
- 1 centroavante: a referência, que prende os dois zagueiros.
Sem a bola o time é uma 4-4-2 compacta, e muitas vezes o segundo atacante se posiciona na frente do volante adversário para cortar o primeiro passe. Com a bola ele vira o armador, e o desenho lembra uma 4-2-3-1 com os pontas mais recuados.
Como funciona linha por linha
Defesa
É a mesma da 4-4-2: uma linha que sobe e desce junta, com os laterais subindo um de cada vez. A Itália de 2006 é o exemplo de livro. Zambrotta pela direita, Grosso pela esquerda, Cannavaro e Materazzi no meio: uma defesa que sofreu dois gols em sete jogos, um contra de Zaccardo diante dos Estados Unidos e o pênalti de Zidane na final.
Os meias centrais
É onde a 4-4-1-1 se decide.
São dois homens no meio, como na 4-4-2, mas com uma ajuda extra: o segundo atacante que volta. A dupla ideal tem um marcador e um organizador. Gattuso e Pirlo em 2006 são a versão definitiva: um roubava, o outro lançava. No Arsenal eram Gilberto Silva e Vieira: o brasileiro ficava, o francês conduzia a bola e chegava na área.
Os meias abertos
Atacam pela ponta e voltam para a linha dos meias. Camoranesi e Perrotta na Itália de Lippi, Pires e Ljungberg no Arsenal: jogadores de lado que faziam gol e que, sem a bola, fechavam a linha de quatro.
O segundo atacante
É a função que dá sentido ao esquema. Recebe entre o meio-campo e a defesa adversária, onde o volante não chega e o zagueiro não quer sair. Pode servir o centroavante, achar o meia de lado que entra na diagonal ou finalizar. Totti em 2006 e Bergkamp em 2003-04 eram dois intérpretes muito diferentes da mesma função: o italiano mais finalizador, o holandês mais armador.
O centroavante
Prende os zagueiros e abre espaço para o segundo atacante. Toni em 2006 era pivô e cabeceador; Henry no Arsenal era o oposto, abria pela ponta e atacava a profundidade. O esquema funciona com os dois perfis, desde que o centroavante não roube o espaço do segundo atacante.
Pontos fortes
- Um jogador numa zona de ninguém. O segundo atacante recebe onde o volante rival não chega e o zagueiro não quer sair. Quem for marcá-lo precisa largar a própria posição.
- A segurança da 4-4-2. Sem a bola as duas linhas de quatro continuam inteiras. O esquema acrescenta criatividade sem tirar cobertura.
- Ligação entre meio e ataque. Na 4-4-2 clássica a bola muitas vezes pula o meio-campo; na 4-4-1-1 sempre há alguém para recebê-la entre as linhas.
- Lugar para o ponta de lança. O atacante técnico que na 4-3-3 não tem posição e na 4-4-2 precisa jogar de centroavante encontra aqui a sua função natural.
Pontos fracos
- Dois contra três no meio. Como na 4-4-2, os dois meias centrais ficam em inferioridade contra um meio-campo de três, a não ser que o segundo atacante volte sempre.
- Depende do segundo atacante. Se ele for marcado individualmente, o esquema volta a ser uma 4-4-2 sem o seu jogador mais criativo.
- Centroavante isolado. Quando o segundo atacante recua demais para buscar a bola, fica um atacante contra dois zagueiros.
- Pontas sobrecarregados. Como em todo esquema de duas linhas de quatro, se os meias abertos não voltam, as laterais do meio-campo ficam vazias.
Como os rivais batem a 4-4-1-1
O primeiro caminho é marcar o segundo atacante individualmente. Um volante que o persegue por todo o campo, mesmo fora de posição, tira da 4-4-1-1 o seu único jogador entre as linhas, enquanto o resto do time marca por zona e espera. É arriscado, porque o volante que sai deixa um buraco, mas contra um esquema construído em volta de um jogador costuma valer a pena.
O segundo é ganhar o meio no número. Uma 4-3-3 ou uma 3-5-2 põem três meias contra dois: se o segundo atacante volta para ajudar, o centroavante fica sozinho; se não volta, o terceiro meia adversário joga livre.
O terceiro é adiantar a linha de defesa. Quanto mais alta a defesa rival, menor o espaço entre as linhas para o segundo atacante trabalhar. Exige zagueiros rápidos, porque sobra campo nas costas deles para o centroavante, mas encolhe exatamente a faixa onde a 4-4-1-1 vive.
Quando os times usam a 4-4-1-1
- Quando têm um segundo atacante de qualidade, que rende mais entre as linhas do que na área.
- Quando querem a segurança da 4-4-2 sem abrir mão de um criador.
- Contra times com dois volantes estáticos, que não sabem quem sai no homem entre as linhas.
- Em mata-mata, quando defender em duas linhas de quatro e contra-atacar com dois homens costuma ser a opção mais segura.
Dois exemplos reais
Itália de Marcello Lippi, Copa de 2006. Na final de 9 de julho de 2006, no Olympiastadion de Berlim: Buffon; Zambrotta, Cannavaro, Materazzi e Grosso; Camoranesi, Gattuso, Pirlo e Perrotta; Totti; Toni. A França saiu na frente com o pênalti de Zidane aos 7 minutos, e Materazzi empatou de cabeça aos 19, em escanteio cobrado por Pirlo. Zidane foi expulso aos 110 pela cabeçada no próprio Materazzi. Nos pênaltis a Itália converteu as cinco cobranças, Trezeguet acertou o travessão e Grosso fez o 5 a 3. Em todo o torneio a Itália sofreu dois gols em sete jogos e não perdeu nenhum.
Arsenal de Arsène Wenger, 2003-04. Lehmann; Lauren, Campbell, Touré e Cole; Ljungberg, Vieira, Gilberto Silva e Pires; Bergkamp; Henry. O primeiro campeonato inglês de 38 rodadas terminado sem derrota: 26 vitórias e 12 empates, 90 pontos. Henry marcou 30 gols na liga, muitas vezes partindo da esquerda enquanto Bergkamp recuava para a zona do camisa 10. Aquele time estendeu a série invicta até 49 jogos de Premier League.
Como reconhecer a 4-4-1-1 vendo o jogo
- Duas linhas de quatro sem a bola, com um homem na frente da linha do meio e outro ainda mais à frente.
- Um atacante que recebe de costas no campo de ataque, entre os volantes e os zagueiros adversários.
- O centroavante sozinho no último zagueiro, com o segundo atacante 10 a 15 metros atrás.
- Sem a bola o segundo atacante fica em cima do volante rival, em vez de pressionar os zagueiros.
O esquema do ponta de lança
A 4-4-1-1 é a forma mais simples de dar posição a um jogador que não é nem centroavante nem meia. Ela não pede para abrir mão de nada: as duas linhas de quatro continuam lá, a segurança continua, e na frente aparece um homem que enxerga jogo onde os outros veem espaço vazio. A Itália de Berlim e o Arsenal dos Invencíveis a montaram em volta de dois craques muito diferentes, e é por isso que ela continua funcionando.
Se no seu time tem um atacante que sempre recua para buscar a bola, escale-o no Quick Lineup como segundo atacante e compare o desenho com a 4-4-2, onde ele jogaria ao lado do centroavante.


