Formação 5-3-2: A Linha de Cinco, a Itália de Conte e Por Que Ela Não É Retranca
A 5-3-2 tem fama de retranca, e quase sempre é injusta. Cinco defensores não significam cinco jogadores parados na área; significam três zagueiros e dois alas que escolhem a cada lance se defendem ou atacam. Aqui estão as funções de cada linha, os dois times que usaram o esquema para ganhar e o que é preciso fazer para furá-lo.
De onde veio a 5-3-2
A linha de cinco é tão antiga quanto o líbero.
Na Itália do catenaccio, dos anos 1960 aos 1980, o líbero jogava atrás de uma linha de marcadores, e muitas vezes o time defendia com cinco homens no fundo. Mas a 5-3-2 moderna vem de outro lugar: da defesa de três que Carlos Bilardo popularizou com a Argentina de 1986. Quando os alas daquele desenho recuam, o 3-5-2 vira 5-3-2, e é isso que ela é até hoje, a mesma estrutura com outra postura.
No futebol de elite recente, o nome que aparece em todo lugar é o de Antonio Conte. Ele ganhou a Serie A com a Juventus em 2011-12 usando três zagueiros, levou a ideia para a seleção italiana na Euro 2016 e voltou a ser campeão italiano pela Inter em 2020-21. Nas três vezes, o time atacava com os alas altos e defendia com eles na linha dos zagueiros.
As linhas da 5-3-2
- 3 zagueiros: um central que comanda e dois pelos lados, que saem para marcar o atacante que abre.
- 2 alas: laterais na defesa, meias no ataque. Ficam mais tempo baixos do que na 3-5-2.
- 3 meio-campistas: um volante na frente da zaga e dois meias que cobrem a largura inteira.
- 2 atacantes: uma dupla que segura a bola e puxa o contra-ataque.
O desenho é feito para defender o espaço que mais importa: a área e a entrada da área. Com cinco na linha de trás, ninguém fica em desvantagem no cruzamento, e o volante fecha o espaço na frente dos zagueiros.
Como funciona linha por linha
Os três zagueiros
Com dois alas ao lado, os zagueiros da 5-3-2 podem sair para marcar sem medo, porque sempre fica gente atrás. O zagueiro do lado vai no atacante que cai pela ponta, o do meio cobre. Na Itália de 2016, Barzagli, Bonucci e Chiellini jogavam juntos havia anos na Juventus e se moviam como um só jogador. Bonucci, em especial, também organizava a saída de bola com lançamentos longos.
Os alas
É a posição que define se o time é retranqueiro ou não.
Se os alas ficam presos na linha dos zagueiros, o time tem cinco defensores e ninguém pelas pontas no ataque. Se eles sobem quando o time tem a bola, a 5-3-2 vira 3-5-2 e o time ataca com sete. Na Inter de 2020-21, Hakimi fazia exatamente isso pela direita: defendia como lateral e, com a bola, era praticamente um ponta.
Os três meias
O volante fica, os dois meias correm de lado a lado. É a parte mais cansativa do esquema: com os alas recuados, os três meias precisam cobrir a largura inteira do campo sozinhos. Barella e Brozović na Inter, com Eriksen ou Vidal completando o trio, são o exemplo moderno de um meio-campo que aguentava isso durante noventa minutos.
A dupla de ataque
Na 5-3-2 os atacantes são a saída de bola do time. Um segura de costas e espera os meias, o outro ataca o espaço. Lukaku e Lautaro Martínez em 2020-21 são o modelo: Lukaku fez 21 gols no campeonato, Lautaro 15, e boa parte deles saiu de jogadas iniciadas no campo de defesa.
Pontos fortes
- Defesa de área quase impenetrável. Cinco defensores contra dois ou três atacantes significam superioridade no cruzamento e sempre um homem de sobra.
- Duas saídas de contra-ataque. A dupla de ataque recebe o primeiro passe e os alas sobem pelos lados. O contra-ataque sai com quatro homens sem desorganizar o meio.
- Muda de postura sem substituição. Os mesmos onze defendem em 5-3-2 e atacam em 3-5-2. O treinador só precisa mudar a altura dos alas.
- Protege um resultado melhor que qualquer outro esquema. Com a vantagem no placar, o time recua os alas e fecha a área com oito jogadores sem precisar mexer no time.
Pontos fracos
- Atacantes isolados. Se os alas não sobem, os dois da frente jogam dois contra quatro, e cada bola longa volta.
- Largura no meio-campo. Os três meias cobrem o campo todo na horizontal. Um adversário que vira o jogo de um lado para o outro em dois passes os deixa sempre um passo atrasados.
- Entrega a bola ao adversário. Com o bloco baixo, o outro time fica com a posse e com o tempo para achar o espaço. Uma falha de marcação em noventa minutos de pressão costuma bastar.
- Depende de alas completos. Um ala que só defende deixa o time sem ataque; um ala que só ataca deixa a linha de cinco virar linha de quatro com um buraco.
Como os rivais batem a 5-3-2
A forma mais eficiente é virar o jogo rápido. Os três meias da 5-3-2 cobrem a largura inteira; uma troca de lado em dois passes os obriga a correr 40 metros na horizontal, e depois de alguns minutos a distância entre eles abre. Um meia adversário recebendo na entrada da área, entre o volante e o meia do lado, é o que a 5-3-2 menos quer ver.
A segunda é prender os alas com pontas abertos. Se o adversário coloca dois pontas bem abertos, os alas da 5-3-2 não conseguem subir sem deixar o ponta sozinho. O time fica preso na linha de cinco e os dois atacantes ficam isolados.
A terceira é ter paciência e cruzar para trás. Contra uma linha de cinco, o cruzamento alto encontra sempre um zagueiro a mais. O que funciona é a bola rasteira para trás, na altura da marca do pênalti, onde a linha de cinco já recuou e os meias ainda não chegaram.
Quando os times usam a 5-3-2
- Para proteger uma vantagem, recuando os alas nos minutos finais.
- Contra times muito superiores tecnicamente, que vão ficar com a bola de qualquer jeito.
- Quando têm uma dupla de ataque forte, capaz de segurar a bola sozinha.
- Contra times que atacam com cruzamentos, porque a área fica cheia de defensores.
Dois exemplos reais
Itália de Antonio Conte, Euro 2016. Buffon; Barzagli, Bonucci e Chiellini; alas pelos lados, três meias e a dupla Pellè e Éder na frente. Uma Itália considerada fraca antes do torneio estreou com 2 a 0 sobre a Bélgica em Lyon, gols de Giaccherini e Pellè. Nas oitavas, em Saint-Denis, eliminou a Espanha, então bicampeã europeia, também por 2 a 0: Chiellini abriu e Pellè fechou nos acréscimos, em cruzamento de Darmian. Caiu nas quartas para a Alemanha, 1 a 1 e 6 a 5 nos pênaltis, e Conte saiu da seleção para o Chelsea dizendo que o único arrependimento eram as cobranças.
Inter de Antonio Conte, 2020-21. Handanovič; Škriniar, De Vrij e Bastoni; Hakimi, Barella, Brozović, Eriksen e Perišić; Lukaku e Lautaro Martínez. Campeã italiana com 91 pontos, 12 à frente do Milan, encerrando a sequência de nove títulos seguidos da Juventus. Lukaku marcou 21 gols no campeonato e Lautaro 15, e o time emendou 11 vitórias seguidas na segunda metade da temporada. Com a bola era uma 3-5-2 agressiva; sem ela, uma linha de cinco que quase ninguém furava.
Como reconhecer a 5-3-2 vendo o jogo
- Cinco jogadores na mesma linha na defesa, com os alas na altura dos zagueiros.
- Três meias bem próximos, deslizando juntos para o lado da bola.
- Dois atacantes sempre próximos, esperando o primeiro passe depois da roubada.
- Com a bola, dois jogadores sobem pelas laterais e a linha de cinco vira linha de três.
Retranca é outra coisa
A 5-3-2 só é retranca quando os alas ficam presos lá atrás. Com eles subindo, é um esquema de contra-ataque com cinco homens atacando e muita segurança atrás, e foi assim que a Itália de 2016 e a Inter de 2021 ganharam jogos grandes. O número na frente do esquema diz quantos defendem, não quantos atacam.
Para ver como fica o seu time com três zagueiros, monte a escalação no Quick Lineup e compare com a 3-5-2, que é o mesmo desenho com os alas mais altos.


